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Em São João del-Rei o come-quieto come melhor debaixo de seu próprio teto


A culinária de Minas tem lugar de destaque na cozinha brasileira. Dos saborosos e fartos pratos dominicais e festivos, capitaneados pelo lombo com tutu ou pelo feijão tropeiro, com arroz branco, couve e um enorme séquito de acompanhamentos,  onde se destacam o torresmo, a farofa, a maionese caseira, até o trivial feijão com arroz mais simples, feito à hora com verduras e legumes colhidos nos canteiros do quintal, que começa na porta da cozinha, e um ovo caipira frito, pego no ninho do galinheiro. Cachaça. Caipirinha de limão rosa ou de limão galego.Tudo que se come e se bebe na casa mineira é tão sagrado quanto foram o pão e o vinho na santa e última Ceia de Cristo com os apóstolos.

Talvez desse modo se explique o fato de, em sua terra, o mineiro nato não ser tão chegado a comer fora. O come-quieto sabe que o que há de melhor é o que ele come sob seu teto. Mas para ele, no rotineiro dia a dia, da porta da rua para fora, também tem pedaços do Paraíso; alguns espaços se salvam. São os bares simples, mais conhecidos como “copo sujo”, buteco ou botequim, onde se come petiscos caseiros, se bebe cachaça forte, pura ou com mel, e cerveja gelada em copo americano, muitas vezes em pé, no velho balcão.

Em São João del-Rei, salvo um ou outro, a maioria desses templos da corriqueira lambiscaria não fica no centro histórico e, por isso, em geral, não são vizinhos da barroco-oficial gastronomia. Suas pepitas de ouro são mesmo os torresmos crocantes; sua lascívia  escorre nas úmidas moelas ao molho de tomate, nas saborosas e escorregadias línguas, nas tenras carnes de panela, nos apimentados chouriços, linguiças, bifes de fígado e coraçãozinho de galinha – tudo para comer com pão ou angu molinho, fumegante e cheiroso, mexido na hora. Se a sorte for grande, se encontra até taioba rasgada refogada!

Onde ficam esses paraísos de perdição e felicidade em São João del-Rei? Ninguém diz, mas todo mundo sabe: no Céu, na Terra, em toda parte. É só dar um passo atrás, olhar em volta, descer do salto e apurar o faro. Certamente você vai encontrar uma porta aberta para o sublime e genuíno paladar do interior de Minas Gerais.

Existe até um “livreto”, chamado Entre Bares,no qual o mineiro muriaé-sanjoanense Beto Soldati e o francês-sanjoanense Pascal Servoz produziram um guia em que apresentam 7 botecos que são a alegria dos marmanjos e barbados de São João del-Rei. Com cardápio, estórias, histórias, avaliação e tudo...

Dizem que 7 é número de mentiroso, mas da palavra de Beto e de Pascal não se duvida. Por isso, tome um Engov antes, separe umas folhas de boldo e um Sonrisal para depois e vá conferir, nesta ordem, que é a do sumário do “libreto” Entre Bares:

1. Wilson’s Bar - Avenida 31 de março, 2.311 - Colônia do Marçal;
2. Rei do Tira Gosto - Rua Aureliano Pimentel, 146 - Fábricas;
3. Bar do Paulinho - Rua Fiscal José Pedro, 145 -    ;
4.  Penna’s Bar - Praça do Bonfim, 188 - Bonfim;
5. Tia Maria 2 - Praça da Biquinha, 1 168-A Biquinha/Tijuco;
6. Bar do Agostinho - Rua Alexandre Sbampato 27 / Praça Pedro Paulo - Matosinhos
7. Bar São Cristóvão - Rua Coronel Tamarindo, 210 - Rua do Barro / Centro.

Mas não faça isso de uma só vez. O risco é grande. Seja cauteloso e vá cada dia em um. No escolhido, jogue um gole pro santo no chão, atrás da porta e: Tim-tim! Saúde! Alegria! Boa Sorte!

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