segunda-feira, 12 de março de 2012

A que tempo, a que espaço e a que lembranças levam as reticentes ruas de São João del-Rei?


Rua da Alegria, Beco do Cotovelo, Bica da Prata, Rua da Cachaça, Rua do Ouro, Rua da Prata, Beco Sujo, Buraquinho, Beco da Escadinha, Cajangá, Beco do Agá, Rua das Mônicas, Morro da Forca, Rua da Graça, Biquinha, Beco da Romeira, Matola, Morro Mané José, Rua da Laje, Beco do Salto, Rua do Barro, Rua do Fogo, Subida da Muxinga, Largo da Cruz. Muito pitorescos e originais eram os antigos nomes das ruas de São João del-Rei, vários homenageando velhos e importantes moradores do próprio logradouro ou informando, já no nome, aspectos da geografia, flora ou atividade predominante no local.

Com o passar do tempo, o avanço da urbanização formalizante, o desejo de um progresso burocrático e o culto à vaidade de políticos, heróis e autoridades, também foram substituindo denominações espontâneas por nomes precedidos de títulos, cargos e funções. Alguns deles resistiram bravamente na memória popular, atravessando séculos e enfrentando em pé de igualdade a formalidade administrativa, a tal ponto de ter-se, na cidade, algumas ruas com duas placas. Uma com a antiga denominação e outra com o nome atual.

Um bom exemplo desta situação é o Pau D'angá, também conhecida como Rua Carvalho Resende, sobrenome de Francisco Inácio de Carvalho Resende. Na língua do povo, a via tem uma preposição a mais - Rua Carvalho de Resende. Nem todos sabem onde ela  fica, mas quem não sabe onde fica o Pau D'Angá?

O nome popular também fixou uma corruptela - Pau de Ingá, árvore ingazeira que há trezentos anos existia no caminho que ligava o centro da vila às lavras de ouro do Barro Vermelho, hoje simplesmente Rua do Barro. Voltando ao Pau D'Angá, ainda no século XVIII a rua foi urbanizada. Documentos de época registram que a 31 de dezembro de 1786 o pedreiro Antônio Francisco Salzedo arrematou a obra de "reparos nas calçadas do caminho que vai para o Pau de Ingá." Em 1805, portanto logo no começo do século XIX, a Câmara mandou que "se fizessem consertos no paredão do Pau de Ingá."

O primeiro jornal de São João del-Rei, o Astro de Minas, fala sobre o Pau D'Angá na edição do dia 27 de novembro de1827. O escritor são-joanense Modesto de Paiva, no livro Noites de Insônia, publicado em 1892,  resgatando a lenda A Sombra do Enforcado em versos assim refere-se ao Pau D'Angá:

            "Jesus, que casa assombrada!
              Coitado de quem for lá...
             Junto à subida chamada
             Ladeira do Pau D'Angá".


Em uma bela pedreira, em um pequeno largo, na metade da ladeira, existe um imponente Cruzeiro da Penitência, que em uma sexta feira da Quaresma é ponto da terceira Encomendação de Almas. Teria sido erigido ali para afastar as tenebrosas assombrações?

A verdade é que, no começo do século XX, o largo do cruzeiro do Pau D'Angá foi palco de animadas festas religiosas. Em 9 de junho de 1918 o vigário Monsenhor Gustavo Ernesto Coelho fez ali pegação que deu início à temporã e tocante cerimônia da Adoração da Cruz. A praça iluminada e enfeitada. tinha no centro um coreto onde se apresentou de uma das duas bicentenárias orquestras barrocas de São João del-Rei.

Sobre as ruas de São João del-Rei, leia também:
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2012/02/poesia-e-beleza-que-se-revelam-nas.html
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Fonte: http://www.sjdr.com.br/historia/igrejas_monumentos/ruas/rua08.html

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