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Miserere mei ... São João del-Rei

No próximo fim de semana, de sexta (1º) a domingo (3), o centro histórico de São João del-Rei será palco perfeito de cinco procissões que muito bem representam um drama que aterroriza a humanidade. A violência. No caso, a representação é extremada, porque é elevada à potência divindade e a vítima, o homem-deus.  Velários roxos, estandartes roxos, incensos, rosmaninho, manjericão, velas, palmas portuguesas, orquídeas, avencas, hortências, galões dourados, espadas de prata, resplendores de prata, coroa de estrelas de prata, coroa de espinhos. Sinos pungentes, motetos lamentosos, lágrimas de diamante, sangue de rubi. Todos estes elementos barrocos tornam ainda mais trágico o teatro sagrado. É a estética a sensibilizar para a conversão, para a reflexão e para a aproximação do humano com o divino.

Mas a violência nossa de cada dia não tem alegorias. O que se vive hoje nas avenidas, nas pontes, nos becos, nos mercados, nos bancos, nos lares não tem recursos teatrais nem elementos cenográficos. A crueldade e a barbárie são de verdade, reais. Na África, na Ásia, na Europa, na América. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em São Salvador da Bahia. Até em São João del-Rei.

A ilustração abaixo, retratando uma cena real colhida durante a guerra em Kosovo, bem pode ser compreendida como uma foto 3 x 4 de nossos dias. Nas zonas de conflito ou onde se imagina ilusoriamente viver a paz, em paz. Olhemos para ela como quem contempla uma Pieta contemporânea. E pensemos como somos vítimas ( mas também algozes) de nossos dias, de nossos sonhos, de nossa infância, nossa juventude, nossa maturidade, nossa maioridade, enfim, de nossas esperanças...

No mundo de hoje, terá se tornado a paz, apenas, uma ilusão?


Crédito: Deuil in Kosovo - Georges Merillon /Gamma -Vencedora do Prix World Photo 1990 - Categoria Fotojornalismo

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